Texto da Apresentação do Livro

Apresentação do Livro “Cartas de Praga/Letters From Prague”, CPAI_28_Out_2010

Queria começar por agradecer ao Paulo Gouveia e ao Clube Português de Artes e Ideias, a edição do livro, o patrocínio da tradução e por tornar possível esta apresentação. E também pela persistência em organizar anualmente o concurso Jovens Criadores.

Gostava também de agradecer à Patrícia Baubeta pela tradução e à Margarida Vale de Gato pela revisão e pela leitura atenta dos meus textos das antologias Jovens Escritores, desde 2007. Ao José Mário Silva pelas críticas e por ter aceite o convite para a apresentação.

Ao Manuel Trancoso que fez o design e a paginação desta edição do livro e ao Alexandre Delmar, porque gosto sempre de fazer parcerias com outros artistas, quer durante o acto criativo quer durante a apresentação do trabalho. E a todos vocês pela vossa presença.

Parte I

Isto não é nada fácil para mim, por um lado acho que me estou a especializar demasiado na escrita e na leitura, que tenho cada vez mais dificuldade em falar em público. E quando falo com pessoas faço-o por mensagens escritas ou por correio electrónico, o que me mantém protegido pela forma de um texto pensado e reescrito várias vezes. 

De viva voz quase só falo por telefone, o que facilita a atenção plena que dou ao discurso directo, posso estar em pijama ou deitado no chão da sala, sem me preocupar com questões de postura, ou ter necessidade de ajustar o cabelo ou pensar em esconder a nódoa na camisa. Agora assim, sobreexposto, atado a uma mesa, o que vale são os amigos mais experimentados que me garantem que isto passa, que vale a pena e que com uma certa afinação tudo correrá pelo melhor!

A outra razão, é que estou habituado a fingir, a inventar coisas e a trabalhar mais ao nível da imaginação do que do concreto ou da alta definição em tempo real. Gosto de especular, de introduzir tortuosidades nas superfícies Para além disso, estas apresentações correm o risco de se tornarem como a defesa de uma tese ou como uma entrevista de emprego, porque em pouco tempo temos de causar boa impressão, um meio termo entre o prazer e a confiança. E a questão da avaliação está sempre a pairar por cima como uma ave silenciosa.

Por isso é que estou a usar um guião, nunca saio de casa sem ele e todas as noites passo algumas horas a preparar o que direi no dia seguinte e a corrigir o que devia ter dito no anterior. É uma espécie de diário antecipado.

Mas talvez devesse ter começado por falar um pouco de mim e por me apresentar pessoalmente, sobre os desportos que pratico, os meus gostos públicos e praias favoritas, até porque é preciso seduzir um pouco, uma vez que se trata indirectamente da tentativa de venda de um livro. E pedem-se algumas boas razões para o fazerem, ainda por cima um livro de poesia, sem nenhuma história interessante.

Parece que estou aqui a fazer uma breve abordagem sobre a angústia de apresentar um livro de poesia. Mas no fundo não será tudo uma questão fisiológica e de adequação, de coerência interna e de ajuste entre expectativas e modulação da voz e acerto nos tempos para tudo chegar no momento certo?

Bom, neste momento estou a escrever para teatro com o Teatromosca, para BD com o Clímaco, outro Jovem Criador, letras de canções para uma cantora japonesa e histórias curtas para ver se colo tudo num romance que nunca mais chega ao fim. O resto do tempo fica para a poesia e alguns fragmentos de textos nas costas de recibos e facturas da água e bilhetes de comboio. Nos intervalos dou algumas Aulas de Enriquecimento Curricular, numa Escola Básica, já ando a perverter a infância com literatices e teatrices. Oriento uma oficina de poesia no Telhal desde Maio passado e estamos a preparar a edição de uma pequena Antologia.

Nasci no Funchal, cresci em Trás-os-Montes e vivo em Lisboa desde 98, quando vim ver a Expo e acabei por ficar por cá. Primeiro na Escola Naval e depois na Faculdade de Farmácia onde conheci a Inês, a minha companheira e a mãe do João. Ela é a leitora de poesia mais exigente, uma vez que não gosta particularmente dos textos poéticos e faz óptimos reparos clínicos que livram os poemas de algumas enfermidades e os tornam quase autónomos. Revê todos os meus textos, por isso se tiverem alguma dúvida ela poderá responder-vos melhor do que eu. Também faz algumas ilustrações, como por exemplo a capa do “Livro das Aves”, que venceu o prémio Daniel Faria em 2009 e agora estamos a preparar outras ilustrações para literatura infanto-juvenil.

O que mais posso dizer. Fui seleccionado para as últimas 3 antologias Jovens Escritores, integrei a comitiva do CPAI à Macedónia em 2009. E fiz a tal residência mágica em Dolni Pocernice, patrocinada pelo CPAI, ao abrigo do Protocolo com o Governo Checo, tal como o Alexandre Delmar e onde estes textos nasceram. Esta Residência em Praga foi fundamental, uma vez que durante aquele mês percebi, não só que era possível, como necessário viver para a escrita, apesar de não ser possível, nem para breve ou talvez mesmo de todo, viver da poesia. Mas isso é outra história.

O problema é que depois de apanharmos esta doença, ela torna-se crónica e exige uma terapia contínua de leitura, observação e construção de personagens, ambientes e viagens compulsivas. É necessário ir subitamente a sítios ou estarmos sozinhos a certas horas para nos encontrarmos a sós e na intimidade com esse vício da escrita. Todas as actividades diárias, desde o acordar, os passeios, idas ao cinema, jantares à beira mar, mudanças de emprego e até experiências como a paternidade são aproveitadas para a literatura, é um viver total para a escrita.

Parte II

Mas queria ainda falar um pouco destas Cartas e da Fotografia e da forma como nasceram estes poemas no Outono de Praga.

Quando faço este tipo de residências inicio um processo de pesquisa antes da viagem, neste caso inscrevi-me nas aulas de Checo na Faculdade de Letras, que ainda frequento. Depois, quando chego ao local onde tudo se há-de passar, começo muito devagar a fazer o reconhecimento da casa que me reservaram e durante alguns dias não me afasto mais de 100 a 200 metros do quarto, preciso de criar um círculo de intimidade antes de me aventurar para mais longe. Esse período inicial é extremamente rico, porque ocorre então um confronto entre aquilo que me chega ao olhar pela janela embaciada do frio e as expectativas, entre a memória e as emoções geográficas.

Durante a primeira semana escrevo grande parte do esboço do trabalho literário, às vezes dura um pouco mais, mas depois acaba-se e em breve começo a andar com frases na boca pela cidade onde começo a tentar orientar o texto e gerir um círculo mais vasto, de milhares de pessoas, edifícios, transportes públicos, outra língua, outra luz e outra temperatura.

Procuro as bibliotecas, depois as Universidades, onde tento frequentar algumas aulas nas turmas dos estudantes de Erasmus, os refeitórios e os teatros, desde os de referência ou mais vocacionados para a música e dança até aos mais obscuros em caves ou edifícios abandonados. Entretanto estabeleço roteiros por essa cidade nos transportes públicos, compro o passe social e ao fim de 2 ou 3 semanas avanço até às fronteiras do país e viajo pelo território ao fim-de-semana onde acompanho os fluxos migratórios.

Em pouco tempo sou um habitante com os mesmos hábitos e fisionomia, compro roupa nos mercados locais, sigo pelas avenidas cheias de gente com horários preenchidos, entro em ruas mal frequentadas, faço a pulsação passar dos 120 batimentos por minuto e descanso nas plataformas das estações de comboios a ver passar os viajantes, como quem espera pelo final de um poema terminado 30 vezes.

A minha poesia parece surgir de um conjunto de vibrações ou influências dos lugares e da história, procuro sobretudo uma relação com lugares fortes, com pessoas como marcas de passagem, com a declinação da luz e o bater das árvores. Procuro uma forma de conseguir ouvir o tempo, o espaço e a voz da própria literatura de uma forma autónoma e onde as experiências individuais ou colectivas sejam intermediárias desses pólos de atracção.

Fiz também séries fotográficas que funcionaram um pouco como auxiliares de memória, para continuar a trabalhar quando regressasse a Lisboa. Trabalhei com o conservatório de Dança de Praga e fiz fotografias de rostos de pessoas em movimento em várias zonas da cidade, relacionadas com o trabalho, o lazer, o movimento e o descanso, sempre este movimento binário. Quis encontrar um padrão que me indicasse algumas influências que os lugares tinham sobre o rostos. Na estação de comboios à noite ou a admirar o relógio astronómico depois do almoço, a atravessar a ponte Carlos ou a sair da Faculdade depois das aulas.

Fiz ainda outra série dedicada à zona da residência, especialmente no enorme parque que havia em redor, com lagos onde se pescava e havia patos e casais a passear os cães e também no cemitério onde tive longas conversas com o jardineiro que apenas falava checo.

Por vezes releio alguns poemas e sinto-os um pouco como instantâneos, recortes de um certo ângulo da realidade, por vezes colagens e sub-exposições e a maior parte das vezes distorções, desvios, numa clara preferência pelos mundos possíveis.

Se a poesia pode ser considerada como uma linguagem de imagens, gostava de usar uma para explicar um pouco o que me aparece como a linguagem poética, da palavra escrita, lida, ouvida, criada ou vista a desfiar à frente dos olhos. Por vezes surge como uma suspensão da realidade, uma alteração da gravidade das palavras mas também um adensamento do ar, uma leveza que se pode tocar, como entrar um na água, devagar,  com o corpo todo. Pode ser uma piscina, um recife de coral, um lago artificial, pode ser a chegada da noite ou um dia de chuva.  

Tenho medo de deixar de sentir isto. Agora parece que estamos a entrar num domínio dos fenómenos paranormais. Mas lembro-me frequentemente do filme “Basquiat”, quando na fase final do seu êxtase criativo olhava para o céu e já não via o surfista nas nuvens ou via-o a ser levado pelas ondas e a perder-se. Para mim a poesia é um estado frágil, para que se possa falar demasiado nela sem que nos escape, por vezes é me difícil manter a palavra a sobrevoar os dias, à tona dos compromissos quotidianos.

Mas este livro levou-me já a muitos lugares, de regresso a Praga neste Verão, onde o apresentei numa livraria, à Bienal na Macedónia em 2009 e a muitos outros lugares onde me arrumam, em estantes cheias de livros, bibliotecas. Sou eu nas mãos de outros, a prova de que a palavra faz o seu caminho. Com ela é possível materializar pensamentos ou fazer pedidos, dar ordens, planificar os destinos de um país. Podemos pedir para ligarem a luz ou chegar ao balcão de uma livraria e dizer – Olhe! Era um livro, com gelo por favor.

Estas apresentações funcionam um pouco como contraponto ao exercício da criação literária, uma vez que neste momento estou a pedir-vos e a dirigir-me a vós, para que me ouçam, para que acreditem no que vos estou a dizer, estou aqui a tecer uma série de argumentos para defender uma tese que não tenho. É a parte exterior depois do intenso trabalho interior, é uma exposição biográfica em lume brando.

O problema é que estamos aqui para ter algum prazer ou um sortido de sensações cujo desfecho seja agradável, mesmo que haja pelo meio alguns sentimentos de angústia, depois chega o alívio, o desenlace e a noção de não termos dado o tempo como perdido. Agora era a vez do Alexandre Delmar ou do José Mário Silva cumprirem esse desígnio ou então as ostras e o vinho verde e um pouco de conversa. A literatura tem esta particularidade de reunir várias pessoas à volta de um livro para se retomarem velhas conversas entre amigos que só se revêem nestas ocasiões.

Muito Obrigado

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