Biografia breve 2007-2010

As palavras são frágeis, mal acabam de ser largadas desfazem-se ou ficam gravadas  em negativo de tal forma no coração de alguém, que pouco haverá a fazer para mudar essa impressão permanente. As palavras ditas são muito perigosas, as escritas ainda mais.

Tunísia 2007

Quando nasci todas as palavras eram novas à minha volta, cada letra podia ser dita de várias maneiras e com várias combinações, depois as palavras tornaram-se cristalizadas, rígidas e falar deixou de ser aquela aventura e passou a ser mais um hábito ou uma procedimento burocrático.

Passei a falar por frases feitas, como uma máquina de escrever que tivesse frases em vez de letras, fraseava em vez de soletrar. Ora isto deu origem ao cansaço, onde todas as palavras e frases eram velhas e quase fora de moda.

Ainda tento dizer coisas novas com as mesmas palavras e quando começo a atingir o limite descubro novos caminhos, em idiomas e alfabetos distantes para juntar mais significados e carga às mesmas palavras da minha língua paterna.

Mas as palavras valendo pouco, parecendo gasosas, impraticáveis, inúteis por definição, levaram-me já a muitos lugares. Praga e o regresso ao espaço da escrita horizontal, para lá da barreira da língua e do tempo. Em Novembro de 2007, um mês – “Escreve o que puderes”.

Acordar para a escrita. Um estúdio, que pertencia a uma casa de verão de um antigo palácio, com uma floresta, um lago e o Outono Eslavo a crescer rodeado de folhas pelo chão. Depois a neve ainda breve e o regresso a Lisboa, com o livro “Cartas de Praga” quase pronto. Ainda a passagem por “Berlim Leste”.

Esquecia-me da Tunísia e do Verão desse ano, as horas do entardecer passadas nas escadas da entrada da Maison Rafiaa. A rua esburacada, casas por terminar, crianças de calções a jogar à bola entre carros sem rodas.

Três frases trocadas com Si Mustafá em dialecto tunisino que só percebia quando me estendia o maço de tabaco negro. Aves reveladas entre as árvores, a chamada para a oração, a Sinagoga vigiada, ruínas romanas, portas do deserto, mercados estreitos e essas crianças aves de voz assombrada a cantar o preço das coisas numa vocalização territorial – Ramsa Mileu Ramsa Mileu….

Depois o Algarve, a península na ponta mais agreste de outra península, onde o vento asfixiava as palavras. Seis meses atrás do balcão de uma farmácia ao serviço da pequena intriga e a sentir a poeira nos olhos e a encher a boca de uma expansão exterior e de um regresso às grandes travessias.

“Ásia Menor” no Inverno de 2009. Percorrer cidades que trocaram de nome 3 vezes, divididas por mares e placas continentais. Percursos interiores levados pelos ventos da estepe. Neve a denunciar a passagem das palavras entre os carris dos comboios. Mares interiores, colares de contas para a oração, revelações politeístas.

Depois o regresso a casa e o anúncio do prémio Daniel Faria com os poemas escritos na Tunísia. Ainda o mês de Agosto com duas semanas para apanhar o Sud Express em Santa Apolónia até Hendaye e depois Paris com uma gravidez pronunciada. As praias de Saint Malô, Bordéus e San Sebastian.

Antes do fim do Verão, a Bienal de Jovens Criadores na Macedónia. Atravessar os Balcãs da forma quase indolor e mesmo assim quase ninguém adormeceu. Duas da manhã na Aero Gare de Skopje e um batedor da polícia para levar a comitiva portuguesa até ao “Hotel Pelagónia”. Sete andares que enchemos de palavras, de poesia cruzada entre 49 portas. A cidade dividida pelo rio Vardar e pelo nome dos deuses. As religiões Muçulmana e a Ortodoxa ainda a dividirem gerações. Duas línguas, duas faces assimétricas de uma cidade inconciliável. A literatura essa foi contrabando entre bocas de poetas e atirada às paredes, ao rio, às mesas dos cafés e das praças cirílicas.

15 de Novembro de 2009, um dos filhos imaginários torna-se real às 5 da tarde, que graciosas 5 horas dessa tarde-noite em Lisboa. A Maternidade depois do parto, Avenidas Novas súbitas de folhas de árvores que se levantavam à passagem de um homem novo. Lembrei-me ainda de poemas e rimas e das datas cruzadas, 15 de Novembro de 1889 e a proclamação da República do Brasil. Nem todos os bebés nascem naturalmente monárquicos.

A Luz sobre o Carro

Praga outra vez, agora no Verão. Regressar com as “Cartas de Praga” debaixo do braço para as apresentar numa livraria ao pé do Teatro Nacional. Mais um mês, agora no estado vertical. Residência Kajetanka, com duas torres de 15 andares.

Ainda um salto a Viena, chuva, frio, 13º de temperatura no dia do regresso a Lisboa com os seus 36ºC garantidos em Setembro. O nosso Outono aguça o desejo dos países do norte. Na Grécia compram-se ilhas em troca de dívida pública, por aqui talvez nos confisquem o tempo ameno do Outono por gestão danosa.

A minha biografia são estas milhas percorridas de mochila às costas entre mapas e noites passadas em gares ferroviárias à espera do comboio de ligação ou do controlo fronteiriço. São nomes de apeadeiros que embatem contra o vidro ou vozes impossíveis de reproduzir às 3h da manhã num bairro suburbano de Istambul ou ainda a chamada para a oração de um terraço de Mahdia nas horas lentas da tarde. Mas são também os sotaques cerrados na gare de Marvão no dia em que anunciavam o encerramento da linha do Leste ou do restaurante da estação de Macinhata do Vouga ocupado por ferroviários, que ofereciam vinho e um copo de três. São esses cafés de balcão com oleado e comida de véspera. É a açorda de bacalhau, são as pataniscas com arroz de feijão, é um café com um vidral da Catarinea Eufémia. em Beja com carapauzinhos fritos e vinho verde numa tarde de chuva onde me fui abrigar.

É ainda andar de bicicleta em cidades planificadas e perder o sentido da casa, dormir em pequenas pensões de tabique com cheiro a verniz dos móveis, hotéis com cortinas vermelhas com vista para as catedrais. São paisagens interiores rodeadas de centrais e fábricas com um odor calcinado e rios espessos em suspensão como pulmões irrespiráveis.

São marcas de preservativos, rótulos de latas de conservas e fotografias de cidades com cigarros acesos entre os dedos. É também a noite rodeada de paredes grossas de mosteiros medievais na terrível Espanha Católica, antes da primeira oração às 4:30 da manhã. Incenso, vibrações de vozes enrouquecidas e símbolos de uma santidade tenebrosa a suspender a noite eterna.

É sobretudo esse conflito entre a literatura de trabalho interior e o instinto de propagação, numa vontade de atravessar todos os países como um comboio musculado. A Europa parte por parte, França, Alemanha, Escandinávia, Grécia, seguir pela Rússia muito lentamente até coleccionar os nomes femininos dos continentes e regressar ainda e sempre a Portugal, esse nome nuclear de falésias varridas por ondas suicidas aonde corpos ambíguos dão à costa.

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