Apresentação do Livro “O Som a casa”, por Tiago Patrício

Só é possível falar poeticamente de poesia 

A apresentação, para além de uma apologia de um livro, funciona um pouco como uma visita guiada, uma excursão, uma tentativa de fazer falar e tentar resumir a paisagem que vemos pela janela de um autocarro em excursão pelo poema. É também uma tentativa de seduzir ou traduzir em várias linguagens o alinhamento de palavras que o Luís faz aparecer neste seu últimos livro.

Podíamos começar pelo título, que contém em si o princípio do poema. A casa, o som. Cada livro é uma casa onde um autor vive, com as suas divisões, os lugares para o repouso, para o canto, para o prazer, para receber gente, para ler livros de outros, para apanhar sol de manhã quando os dedos arrefecem nas teclas, para fazer as refeições. Há poetas que não têm cozinha em casa nem nos seus livros, não têm o hábito de lidar com alimentos com as mãos e comem sempre fora ou encomendam comida feita por telefone.

As colectâneas ou as revistas literárias, são como certas residências onde nos tentamos emancipar da primeira casa materna.

Quando chegamos indicam-nos um dos vários quartos disponíveis, mais ou menos iguais por fora e onde começamos encontrar uma voz própria.

Os vizinhos do lado fazem o mesmo, por isso é comum o ruído de uns quartos para os outros, porque é muito difícil não exagerar nesses mundos possíveis da poesia e não ultrapassar os limites de ruído entre as páginas dessas revistas.

1)

alguém canta, se adormeço entre rosas;

alguém canta, se o mármore amadurece

por dentro da vertical cegueira do sangue

e se recolhe no tímpano; e

alguém canta se, subitamente,

o silêncio é uma fatalidade musical,

e o pó, esse fruto semeado entre os dedos,

ainda inclinados sobre a pedra,

aguarda o florescer da manhã

entre a carne palpitante do peito

e a friíssima sede do cinzel auscultando o coração

de quem canta rodeado de noites

e semeado das nocturnas pétalas do pó

Começamos com um canto de quem sabe colocar as palavras até aos limites da liguagem, sem as deixar cair em abismos. É desse som que este livro nos quer falar, do canto das sereias, da influência das palavras no vento das searas, do escopro na pedra, depois de muitos meses nas montanhas a perscrutar o melhor mármore e depois trazê-lo na memória e começar a desenhar com o lápis, a decantar o pó e a peneirar antes de gravar na terra um substantivo.

4)

o pulso, rodeado de água negra,

o pulso, fonte e clareira do movimento. o pulso recolhe

o dilúvio da epiderme do som, quer a pele e a sede

desse mármore;

o pulso, que segura o cinzel, o pulso

é o naufrágio de uma cega leveza sonora de metáforas

a prumo, no aprumo do canto escrito no pó semeado

à tangente do lábio lírico;

é depois uma, a primeira, sempre aquela palavra

que dissemina as águas, e que é a ascese

lunar da sombra através dos muros e o mar;

que é a amêndoa, a prata

dos joelhos da fêmea em prato

diante das imagens estilhaçadas

pelo movimento que as inicia; e é sempre

essa palavra que fica – essa palavra que

é sempre a loucura do minimo

Há aqui um elogio da palavra fundamental de alguém que cinzela e cuida da palavra delicada entre os dedos. Que canta o indizível, que tenta, que sabe onde não pode tocar, mas que no entanto é água que traz à presença, que diz e nomeia o Entre, o umbral da porta, que aguarda na clareira, em estado mineral, a passagem e os acenos. Esta poesia não aparece como uma construção de blocos pré-fabricados, nem com um plano de crescimento definido ou uma finalidade de ornamento, não persegue indiscriminadamente a metáfora em ruas apertadas, nem um virtuosismo vazio. Não é uma colecção de acidentes imediatos, nem números de portas, nomes de ruas ou datas de acontecimentos mínimos. Não procura seduzir pelos extremos para depois trazer uma moderação redentora, nem é uma poesia musculada nem autoreflexiva.

Há degraus ao longo das página deste livro que nos levam a muitos lugares e nos modificam, até nos situarmos acima deles e vermos melhor e pensarmos melhor. O Luís não é o mesmo depois de ter escrito este livro e nós não ficamos iguais depois de o lermos, de o ouvirmos por dentro, de o ter nas mãos, de o tactearmos, palavra a palavra. E depois, na segunda leitura ou anos mais tarde ainda tem alguma coisa para nos dizer. Esta poesia produz pensamento e acrescenta saber. Vemos melhor a fronteira entre homem, mundo e mistério.

 Sempre que o Luís me perguntava o que achava da poesia dele, eu respondia quase sempre. É uma poesia que eu gostaria de conseguir escrever um dia. Talvez seja por isso que me convidou para participar nesta apresentação. Mas isto deixa um problema para resolver ao Luís:

– O que escrever depois disto? Para onde ir?

 O Luís só tem as palavras, não recorre a acidentes nem a uma actualidade restrita. Mas propõe, sabe as dificuldades, conhece as limitações, sabe onde não pode ir, para além de, contudo ainda nomeia…

6)

e não se pode cantar essa mulher feita de penumbra

que cresce por dentro dos versos, essa água negra

que devora as imagens desde o fulcro do gesto

dos dedos inclinados sobre a brancura da página

à cova de seda vermelha do coração; não se pode cantar

o rosto dessa mulher, que é uma escarpa de vidro recolhendo

os prodígios, amalgamando os meridianos da ordem

e propiciando a coincidência da escuta e da pupila,

e a catarse dos anjos ajoelhados, sem voz

diante do coração da visão, não se pode cantar

esse anjo de penumbra que germina entre os umbrais

dos braços cingidos por elipse de lume

7)

e não te possso cantar a ti (imagem),

que me costuras um anjo de pó na fronte, se as ânforas do verso

vertem as marmóreas madrugadas do canto

através da rosa aberta da casa onde te deitas comigo,

e se fico submerso de memória e água até ao coração,

e sucumbo a esse levíssimo peso da lua cingida pelas ancas;

não posso cantar a casa, essa rosa

onde me pões a pedra sobre o coração;

e, repito, não posso cantar a casa,

a clareira de todo o movimento do mundo,

o radial espaço da permanência; não posso cantar,

sem que a água negra brote dos buracos líricos da pedra;

não posso cantar o mais mínimo destino

8 )

apenas posso cantar as imagens. apenas posso cantar

imagens de imagens; tão-só posso cantar

o invisível movimento das imagens; tão-só posso cantar

o que se canta a si mesmo, sem fixar a rosa

no cume das águas erguidas a prumo até onde (o) nada se vê.

porém, entre o movimento do cinzel, a invisibilidade do mundo,

a escuridão da água rasa em torno dos olhos

e o florescimento do pó, sei que

o poema, esse gesto antiquíssimo, sei que o poema dirá

o enorme talento dos minerais, e que tu, imagem do meu sono

nos interstícios das coisas, tu, estátua, tu

havias de dizer as metáforas todas enfileiradas, de rosto voltado

para a penumbra do pó semeado entre os dedos;

e sei que tu haverás de dizê-las,

por fim, maduras para a escuta de todos os líquidos perecíveis

e do coração do pó estremecendo onde

o gesto coincide com o som,

sei que tu haverás de dizer o lugar

onde as imagens sempre se detêm para ouvir a íngreme loucura do coração, o lugar onde

finalmente o mármore amadurace

na epiderme da escuta em que o poema ressoa

através do imóvel tímpano da pedra

Há uma evocação, uma tentativa de ir adentro das palavras, uma duração que podia ser a do universo. Não é uma escrita para ontem, nem para a próxima década, é uma manuscrita para daqui a mil anos.

Há também uma imanência, a partir de essências como árvore, respiração, mármore, pó, semente, trigo, pele, anjo, ânfora, água, luz… que transbordam e se revelam pela produção extensiva que a poesia do Luís manifesta

Pág. 64

repito a inexorável argúcia dos salmos

e amo os portais abertos diante da força da água

tento compreender o meu tempo

e o imponderável intuito do poema

não tenho outros olhos nem outras mãos

já não mostras imagens

mas eu vejo as heras fazendo lábios

sombrios por interjeição e bafo

sou só boca fremente

e a terra aflita dos vulcões 

água rosto incessante

dianta das portas repito

os tropos a sonora legibilidade do lugar 

sei que alguém espera sempre

o fruto maturado

a véspera da mão a água turva

pela cintura

sei que alguém espera sempre

como se esperasse

de glábio em punho

o florescimento das janelas

sei que alguém espera sempre um poema

Há uma pergunta que queria deixar à poesia do Luís, haverá aqui também uma tentativa de adiar pelo regresso a casa? De manter o ainda? O Luís não é de Lisboa, não nasceu numa grande cidade, mas num lugar próximo desses quintais junto ao odor da flor da laranjeira, como se o poema escolhesse sempre o caminho que nunca chegasse ao destino último. O Luís propõe, depois prepara o terreno, amacia e coloca o arado, sabe como agradar a terra e depois mostra os frutos, apresenta-os quando os aguardamos e eles são e sabem exactamente àquilo por que esperávamos mas ultrapassa em muito aquilo que estávamos à espera, ele não promete apenas.

Pag. 25

a casa a água ande em volta

alguém semeia uma pedra em cima da mesa

onde o pão derradeiramente floresce

alguém sabe que

todo o lugar se cria por desproporção elementar

dos seus elementos

uma paisagem que se nutre

da ausência mesma do seu próprio nome

(como o amor)

sou nada mais que uma infância que diz

antes do poema há a infância imotivada de certos nomes

lentíssimas casas da argila entre

prado mar

alumínio e a cal decantada

Pag 30

e sei que infância alguma me trará

de volta o branco odor do pó

(o nome assim tão raso do mundo)

(…)

é sempre através dos nomes que a infância termina

é sempre através dos nomes que na carne se consuma

a terra aberta desde a raiz dos cânticos

O Luís é insubstituível como poeta, mas também como aquele que canta, que retorna, retoma a palavra à voz, que diz dos seus poemas outros poemas. É necessário fazer esta apresentação pelo Luís, por motivos geográficos e pode até parecer possível falar por ele, mas é impossível substituir o Luís no seu ofício de poeta. Não poderá ser alguém por ele, os deuses não reconheceriam outro a quem entregar estes poemas em bruto, que depois ele compõe num trabalho invisível, um saber colocar a mão, assim, como quem lida com o milagre das sementes e dos frutos. É importante que ele esteja onde está agora, a ser sozinho e a comprovar que está rigorosamente só e desarmado face ao poema por vir, numa nudez luminosa face a esse corpo fecundo da Europa, onde ele procura o centro e as margens e a criação das últimas coisas.

2)

enquanto o pó não floresce por dentro

do movimento do sangue, e os braços

de quem dorme dentro da pedra

apenas se erguem inutilmente

para uma negra solidão de metáforas

o poeta fechas-se dentro da pedra, e espera

pela perfeita coincidência da mão e do gesto

e da água e do fruto; o poeta espera,

inclinado justamente

sobre o vértice da água guardada

nas ânforas das imagens;

o poeta sabe que toda a água é perpendicular

à verticalidade desse gesto

que escreve sempre as últimas coisas

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