“A Memória das Aves” em Dezembro

Tiago Patrício vence prémio de poesia Natércia Freire

O júri do prémio nacional de poesia Natércia Freire decidiu por unanimidade distinguir o original “Memória das Aves” de Tiago Patrício. A cerimónia de entrega do prémio decorreu no sábado, 10 de Dezembro, no auditório do Palácio do Infantado, em Samora Correia, concelho de Benavente, pelas 21h30.

O júri foi constituído pela vereadora da educação, Gabriela Santos, pelos escritores Sérgio de Sousa, José Colaço Barreiros e Domingos Lobo, e pela professora da Escola Secundária de Benavente Maria João. Este ano estiveram em concurso 76 obras inéditas. A cerimónia de entrega do prémio contou com a animação musical do Quarteto de Saxofones da Sociedade Filarmónica Benaventense.

 

Texto lido durante a cerimónia de entrega do prémio Natércia Freire 2011

É com muito gosto que estou aqui nesta noite calorosa, queria agradecer aos membros do júri e a todos os presentes.

É de uma alegria ter sido contemplado com este prémio, cujo patrono é uma poeta que muito prezo pela sua qualidade como poeta e pelo seu trabalho de mediação cultural, na imprensa e na Fundação Gulbenkian.
Gostaria de ler um dos seus poemas.

Cor  

É preciso soltar o ritmo que me prende.
Esta amarra de ferro à palavra e ao som.
Emudecer, no espaço, o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.
Não saber se uma flor é mesmo uma criança.
Se um muro de jardim é proa de navio.
Se o monumento fala, se o monumento dança.
Se esta menina cega é uma estátua de frio.
Um pássaro que voa pode ser um perfume.
Uma vela no rio, um lenço no meu rosto.
Na tarde de Fevereiro estar um dia de Outubro.
Nos meus olhos de morta uma noite de Agosto.
É preciso soltar o ritmo das marés,
Das estações, do Amor, dos signos e das águas,
Os duendes das plantas, os génios dos rochedos
Nos cabelos do Vento, as tranças de arvoredos.
Desordenai-me, luz! Que nada mais dependa
Das águas, das marés, dos signos e do Amor.
É preciso calar o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.

in «Obra Poética»,
1991-1995, IN-CM, Lisboa

 

Gostaria agora de falar um pouco sobre as aves e desta opção de produzir estes pequenos tratados poéticos de ornitologia, iniciados em 2006

O elogio das aves

Há quem diga que as aves são descendentes dos dinossauros, foram aquelas que ficaram, como semente que germinou após o longo Inverno, ganharam asas e tornaram-se no mito da liberdade e da elegância, com os seus voos rasgados ou a planar sobre as correntes de ar quente.

E nós, que tanto gostaríamos de atravessar continentes e de sobrevoar como o sábio sobre todas as contrariedades e contingências da gravidade seríamos capazes de nos libertar da terra fixa e das nossas árvores individuais?

Estes pássaros que convoquei para este segundo conjunto de poemas sobre aves, têm uma grandeza trágica, própria dos que viram demasiadas coisas, são aves que se recordam das travessias no deserto e não se esquecem dos inimigos, mesmo depois da mudança de plumagem.

Ao longo do livro insinuam-se pequenas memórias de aves precárias, de aves desalojadas, famílias de aves expatriadas e separadas à nascença.

Depois do “Livro das Aves” em 2009, restava ainda um conjunto apreciável de poemas escritos na Tunísia, em Praga e em Vila do Bispo, onde trabalhei como farmacêutico. Para além destes poemas, com um sentido político mais agudo, outros foram escritos noutras viagens subsequentes. Este ano tornou-se claro que estava na hora de os largar e este concurso de Benavente, pareceu-me o mais indicado, uma vez que a zona da Lezíria está também muito ligada às visitas de campo que fazíamos na observação de aves através da SPEA.

As apresentações deviam ser no início, mas antes de terminar gostaria de ler dois poemas curtos e de enumerar apenas alguns aspectos biográficos

Biografia

Quis ser actor e tornei-me dramaturgo de duas companhias de teatro, onde faço por vezes uma perninha nas leituras encenadas quando faltam actores a sério. Quis ser engenheiro, depois médico e ainda oficial da Marinha e acabei farmacêutico à terceira tentativa.

Sempre quis escrever um longo e volumoso romance e acabei por me especializar em escrever poesia e textos curtos e fragmentos e no meu primeiro romance não consegui ir além das 135 páginas.

Depois do meu primeiro tratado mínimo sobre aves quis escrever sobre as árvores, da liberdade máxima de movimento para o estado de latência, porque o período de respiração das árvores demora 132 dias, mas acabei por voltar a escrever sobre aves e sobre o palpitar dos seus voos melancólicos

 

A evocação das Aves

Descrevo aves em lugares
onde nunca estive
e que vêm pousar
à minha mão

À proa de Sagres

O tempo decresce e fustiga o costado
de uma península no extremo de outra
península à deriva dos fantasmas

Rodeada de casas a barlavento
e de aves que chegam do norte por gravidade
e mal sabem navegar em terra seca

 

Vila do Bispo ao final de uma rua em Setembro

Há sempre uma cegonha presente
nas alturas decisivas

 

 

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