Máscaras Ibéricas – O Lado Português

A tradição das máscaras ancestrais hiberna entre as montanhas, onde os ritos de passagem eram signos incorporados na transformação da natureza. Caretos, Filandorras, Matrafonas e outras criaturas demoníacas, sobreviveram no isolamento circular de aldeias equidistantes entre as províncias do interior norte da Ibéria e que não reconhecem fronteiras de raças, credos, inclinações sociais ou linguagem.

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Mais ou menos nas mesmas zonas inacessíveis subsistem os velhos e alguns resíduos do culto pagão, ligados à terra e às datas associadas a momentos precisos das estações do ano. Estas festas coincidem por assimilação, anexação ou ajuste de contas, com as festividades católicas, desde o o ciclo natalício ou dos Doze Dias, do Natal ao Dia de Reis, adaptado das festas pagãs pré-românicas, por ocasião do Solstício de Inverno, como as Saturnais, entre 17 e 24 de Dezembro e as de Mitra, deus persa e “Sol da Virtude” (“nascido” a 25 de Dezembro e importado dos cultos solares do Médio Oriente).

No final do mês de Dezembro, ocorriam ainda as festas das Sigilárias, em que se ofereciam estatuetas como presentes e prendas às crianças e aos pobres e correspondiam ao fim do ano romano.

A “Festa dos Velhos” acontece na freguesia de Bruçó (Mogadouro) na manhã de 25 de Dezembro e conta com as personagens da “Cécia”, mãe de um bebé, com o marido na guerra, protegida pelo “Soldado”, com uma violência bruta e inconsequente que espalha pelas ruas da aldeia. Há ainda mais dois velhos mascarados que ajudam a manter o secretismo à volta das personagens. Encontra-se alguma da truculência desses tempos retraídos, quando só ao mascarado tudo era permitido num jogo de extremos, através de uma força que estas personagens descarregam em cada gesto electrizante, pelas ruas da aldeia, ao crepúsculo da natureza.

Bruçó 2007

O “Assalto ao Castelo” acontece no dia 27 de Dezembro na Freguesia de Torre de D. Chama (Mirandela) e já inclui modernas caçadeiras no cortejo.

Torre D. Chama 2008

O ciclo carnavalesco corresponde às antigas “bacanais de Março da época romana”,em honra do deus Baco, invocavam-se as larvas, os maus espíritos e fazia-se a reconciliação com eles, antropomorfizando-os. O Entrudo é a celebração do renascer na Natureza, num tempo de festas que prepara a chegada da Primavera, a designação de Carnaval apareceu somente a partir do século X.

Em Portugal existem 2 exemplos reconhecidos que apostaram na institucionalização do Entrudo, Lazarim (Lamego) e Podence (Macedo de Cavaleiros) e com as devidas diferenças são hoje nomes reconhecidos no país e recebem centenas de turistas nas pequenas aldeias base, mas correm o risco de desvincular o valor da mascara no contexto em que foi inicialmente pensada e torná-la num aproveitamento e esvaziá-la de conteúdo ao difundir o comércio para fins turísticos da máscara, do fato e da própria tradição imaterial, como se esta pudesse ser apropriada.

Lazarim 2012

Podence 2008

 

Outras organizações estão a tentar recuperar estas tradições, algumas de forma genuína, com os antigos preceitos e numa procura de manter a dignidade outras de forma mais ou menos artificial, para captar visitantes, criar um espaço cultural no calendário festivo.

Vinhais é um desses exemplos, onde a Câmara Municipal tomou a iniciativa de retomar a festa dos Diabos na Quarta-feira de cinzas, em que homens de fato vermelho correm pela vila como escolta da figura negra da morte, mas sem a vivacidade e o mistério dos antigos rituais.

Vinhais 2009

Estas criaturas ancestrais emergem todos os anos desde os alvores da criação e passam por caminhos sinuosos que ainda causam estranheza pelas roupas, pelos gestos de tirites e pela pujança dos bombos e das gaitas de foles que os acompanham. E são violentos e aterrorizadores, como só o homem consegue ser, regressando depois aos bosques junto às aldeias, para se protegerem de um tempo irreconhecível.

Lazarim 2012

Lazarim 2012

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