Oficina de literatura de viagem (interior) – Feira do Livro de Lisboa, 9 de Junho, 21h

Oficina de literatura de viagem (interior)

As terras do risco

Quem se impressiona muito com a paisagem está a esconder os seus desejos íntimos.

Agustina Bessa-Luís, As terras do risco, Guimarães Editores, 1994, p.7

Devaneio entre Cascais e Lisboa

Devaneio entre Cascais e Lisboa. Fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação destas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho de visível. Lucrei estas páginas, por olvido e contradição. Não sei se isso é melhor ou pior do que o contrário, que também não sei o que é.
O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.

Viagem que nunca fiz

Foi por um crepúsculo de vago outono que eu parti para essa viagem que nunca fiz.              O céu — impossivelmente me recordo — era dum resto roxo de ouro triste, e a linha agónica dos montes, lúcida, tinha uma auréola cujos tons de morte lhe penetravam, amaciadores, na astúcia do seu contorno. Da outra amurada do barco (estava mais frio e era mais noite sob esse lado do toldo) o oceano tremia-se até onde o horizonte leste se entristecia, e onde, pondo penumbras de noite na linha líquida e obscura do mar extremo, um hálito de treva pairava como uma névoa em dia de calor.
O mar, recordo-me, tinha tonalidades de sombra, de mistura com figuras ondeadas de vaga luz — e era tudo misterioso como uma ideia triste numa hora de alegria, profética não sei de quê.
(…)
Visitei Novas Europas e Constantinopolas outras acolheram a minha vinda veleira em Bósforos falsos. Vinda veleira espantais? É como vos digo, assim mesmo. O vapor em que parti chegou barco de vela ao porto […] Que isto é impossível dizeis. Por isso me aconteceu. Chegaram-nos, em outros vapores, notícias de guerras sonhadas em Índias impossíveis. E, ao ouvir falar dessas terras tínhamos importunamente saudades da nossa, deixada tão atrás quem sabe se naquele mundo.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

A viagem

Uma vez que as ruas que conduzem da Strand ao Embankment são muito estreitas, é aconselhável que não as percorramos de braço dado. Se teimarmos, os escrivães dos advogados ver-se-ão obrigados a esquivar-se dum salto e a aterrar na lama; as jovens dactilógrafas ião impacientar-se atrás de nós. Nas ruas de Londres, onde a beleza passa despercebida, a excentricidade tem de sofrer as devidas consequências e melhor será não sermos muito altos, trajarmos uma capa azul comprida ou agitarmos a mão esquerda no ar.

Virginia Woolf, A Viagem, Editorial Presença, 2011, p. 7

Névoa

Ora, cá temos o inevitável automóvel, ruído e pó! E que se adianta em suprimir assim as distâncias? A mania de viajar vem da topofobia, e não da filotopia; o que viaja muito vai a fugir de todos os lugares que deixa, e não à procura de cada lugar a que chega (…)

Miguel de Unamuno, Névoa, Vega, p.26

A repetição

Se se for um viajante profissional, um estafeta que viaje para meter o nariz em tudo o que os outros cheiram ou para escrever no diário o nome dos sítios que vale a pena visitar e em troca ver o seu no grande livro de registo dos viajantes, então contrata-se um criado temporário e compra-se toda a cidade de Berlim por quatro centavos. Com este método, um indivíduo converte-se num observador imparcial cujas declarações terão de ter credibilidade em qualquer registo de polícia. Se, pelo contrário, não se tem propriamente um fito para a viagem, então deixa-se que as coisas corram por si; ter-se-á por vezes oportunidade de ver o que os outros não vêem; passar-se-á ao lado do mais importante; obter-se-á uma impressão casual que só para o próprio terá significado.Em geral, um passeante assim despreocupado também não tem muita coisa para comunicar a outros e, se o faz, corre facilmente o risco de pôr em perigo a boa opinião que as pessoas de bem possam ter sobre a sua conduta e moralidade.

Søren Kierkegaard, A Repetição, Relógio D’Água, 2009,  p. 56-57

Contos do mal errante

(…) para nós, várias cidades transmigrando, tinham-se implantado à volta da concentração em que vivíamos ; havia Münster, havia Lisboa, havia Antuérpia, havia Amsterdão, e outras permaneciam incógnitas na nebulosidade grave que nos rodeava ; era para Münster que forças convergiam; nessa altura , Hadewich não habitava longe , e pouco a pouco determinámos a rua em que morava , perto da praça de mercado , mesmo à saída de Münster, que podia ser uma das saídas de Lisboa, de preferência a que dá para o Mar; (…)

Maria Gabriela Llansol, Contos do Mal Errante, Assírio e Alvim, 2004, p.24

Reynolds Cottage - Ledig House (Nova Iorque)

Reynolds Cottage – Ledig House (Nova Iorque)

Estado de cama

Primeiro ficou com febre e passou vários dias deitado, depois teve suores nocturnos e insónias e não conseguiu dormir nem concentrar-se para ler nem para escrever. A seguir vieram as náuseas e a dificuldade em comer, depois ficou demasiado fraco e cansado para pensar. Finalmente melhorou, e um dia acordou tão bem-disposto que passou dois dias a
dormir.
Quando acordou, achou que estava finalmente recuperado e decidiu celebrar começou a dar pulos de alegria e depois mergulhou na piscina e a seguir andou de bicicleta a transpirar pelos campos. Três dias depois adoeceu outra vez. Quando recuperou, passados cinco dias, as canetas não escreviam, o papel estava húmido, o computador tinha avariado e ele voltou a ficar desanimado. Ainda teve cabeça para fazer as contas, o que só piorou o seu estado: tinham passado quase três semanas, mais ano menos ano.

Tiago Patrício, O Estado de Nova Iorque, Gradiva, 2013, p. 81

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Piscina da Ledig House (Nova Iorque)

Falta de inspiração
Dá um mergulho na piscina, dorme a sesta e passeia durante a noite pelos jardins. Prepara uma refeição às quatro da manhã, liga o rádio, procura livros nas prateleiras mais altas da biblioteca e escolhe um atlas sobre países que já não existem no cadastro.
Aguarda até que a voz do computador comece a falar sobre o tempo e imagina que ela é o fantasma da casa que te persegue desde a primeira noite. Corre pela floresta através de um carreiro, mas tem cuidado com os caçadores e com os avisos de propriedade privada. Anda de bicicleta pelo parque das esculturas e tenta decifrar a conspiração dos corvos. Começa um livro encostado às escadas da casa branca e nos intervalos contempla o bosque lá ao fundo. Repara como as folhas das árvores mudam para castanho e vermelho, inspira fundo e aguarda. Ainda não foi suficiente? Procura garrafas de vinho, de cerveja, de  whiskey ou mesmo de  vodka, se conseguires encontrá-la, ou tenta outras drogas legais. Dá um longo mergulho no inconsciente, tenta a meditação, a regressão, a auto-hipnose ou fica sem dormir durante três dias e terás uma viagem garantida. Desce pela cidade à procura de diversão, passeia pela rua principal, cumprimenta as pessoas, pede boleia para algum lado, foge da polícia ou faz uma visita ao tribunal da cidade, se quiseres ter a experiência. Por vezes é necessário correr riscos para chegar mais longe.

Tiago Patrício, O Estado de Nova Iorque, Gradiva, 2013, p. 93,94

Reminiscências: lugares e pessoas

Brooklyn – Ruas ladeadas de árvores. A ponte. Igrejas e cemitérios por todo o lado. E lojas de doces. Um rapazinho ajuda um velho de barbas a atravessar a rua e diz-lhe:
– Bom sabbath.
O velho sorri e despeja o cachimbo na cabeça do rapaz. O miúdo corre para casa a chorar… Um calor e uma humidade sufocantes descem sobre o burgo. Os moradores trazem cadeiras de encartar para a rua e sentam-se na conversa. De repente começa a nevar. Confusão total. Um vendedor desce a rua apregoando pretzels quentes. É acossado por cães e trepa a uma árvore. Infelizmente para ele, há mais cães em cima da árvore.
– Benny! Benny! – Uma mãe que chama o filho. Benny tem dezasseis anos e já tem ficha na polícia. Quando tiver vinte e seis irá parar à cadeira eléctrica. Aos trinta e seis será enforcado. Aos cinquenta será dono de uma lavandaria. Neste momento a mãe está a servir o pequeno-almoço e, como a família é tão pobre que não pode comprar pãezinhos frescos, barra o jornal com marmelada.

Woody Allen, Prosa Completa, Gradiva, 3ª Edição, 2005, p.339

Viajar! Perder países!

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

20-9-1933

Fernando Pessoa, Poesias (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995)

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