O fim do Outono em Dolni Pocernice, Praga 9

O fim do Outono em Dolni Pocernice, Praga 9

A neblina controla as árvores e a terra musculada por comboios soberbos que
se avistam entre as árvores derrubadas. A grande floresta é um parque
rarefeito, com jardineiros que relembram a terra e crianças com os pais pela
mão e depois para trás pelo mesmo caminho.
Tantos anos e o frio nas orelhas e nos dedos até subir ao nariz já é outro, são
outras as casas, os carros e só os Velhos têm a marca gravada, na língua, nos
olhos e nas mãos gastas de uma fraternidade enrugada, habituadas à delação
e aos dias contados debaixo de uma projecção infinita.
Ao fundo do Outono uma chaminé encobre o sol oblíquo das três da tarde,
lança nuvens brancas e vidradas, que encandeiam a luz baça, com um odor
corrompido.
Dentro da floresta uma árvore, vive a sua segunda vida ecuménica, trabalhada
por um homem horizontal de duas cabeças, que gravou um pássaro exótico de
corpo distendido até aos 7 metros, onde acabam as raízes no ar do antigo
corpo de árvore ligado à terra. O bosque abaixo do nível de uma azenha,
instalado por descuido, cresce de noite como os cabelos de um cadáver.
À minha frente o indício de um Inverno Soviético ataca-me certas fibras
nervosas, de um fascínio tenebroso na queda das estrelas. São as árvores
despidas que enunciam uma marcha contra o vento, um coro totalitário, frio,
cruel, de uma solidão cheia de arquipélagos escavados na terra.
Uma impotência de cidade fechada, de casas vigiadas, de um país inteiro
congelado, mulheres de uma magreza extraordinária, de rosto polido e uma
limpidez mínima nos gestos. Depois o nevoeiro cresce nos campos e nos lagos
e avança pelas aldeias da montanha e desce à cidade, onde concentra esse
gelo fraterno que medeia o centro e as fronteiras. Nas ruas, os carros rodeados
dessa lentidão, vazios, monótonos, são uma continuação do nevoeiro, são
peças do mesmo edifício de alta densidade, programado e definido até ao fim
do Outono da humanidade.

 

The end of Autumn in Dolní Počernice, Prague 9

The mist controls the trees and the muscled earth by proud trains that are glimpsed between felled trees. The huge forest is a rarified park, with gardeners who recall the land and children holding their parents’ hands and then backwards by the same path.
So many years and the cold in their ears and fingers until it gets to the nose and is different, the houses are other houses and the cars. Only old people have the mark engraved, on their tongue, in their eyes and the worn hands of a wrinkled brotherhood, accustomed to betrayal and their days numbered beneath an infinite projection.
At the end of the Autumn a chimney covers the oblique sun at three in the afternoon, casts white glassy clouds that darken the dim light, with the odour of corruption.
Inside the forest a tree lives its second ecumenical life, worked by a horizontal man with two heads, who has carved an exotic bird with a body swollen up to 7 metres, where the roots end in the air of the old tree body linked to the earth. The wood below the level of a watermill, installed by mistake, grows at night like a corpse’s hair.
In front of me the sign of a Soviet winter attacks my nerves, with a dark fascination in the falling of the stars. They are the naked trees that utter a march against the wind, a totalitarian choir, cold, cruel, with a loneliness full of archipelagos dug into the earth.
The impotence of a locked city, houses under surveillance, an entire country frozen, extraordinarily thin woman, with polished faces and a minimal limpidity in their gestures. Then the mist grows in the fields and lakes and advances through the mountain villages and comes down to the city, where it concentrates that brotherly ice that mediates between the centre and the frontiers. In the streets, the cars surrounded by this slowness, empty, monotonous, are an extension of the mist, they are pieces of the same high density building programmed and defined to the very end of the Autumn of the human race.

Tiago Patrício, in Cartas de Praga, tradução de Patricia Odber de Baubeta, edição CPAI, 2010

 

 

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